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"Para muita gente dizer não é extremamente difícil
(para alguns é impossível). A maioria de nós, em
um grau maior ou menor, tem esta dificuldade".
                                                     Ralph Viana


Como é difícil dizer que não sequer mais manter um relacionamento; que não quer transar esta noite; que não gosta do que o outro/a fez; que não quer repetir uma coisa que o parceiro gosta mas você detesta... Enfim, são inumeráveis as situações que temos dificuldades em dizer não e por isso acabamos por fazer algo que não desejamos ou deixamos de falar algo que queremos.


Possíveis origens

Num momento de nossa infância passamos pela conhecida “Fase do Não”. A criança, como num disco arranhado (vocês não lembram do tempo que os discos arranhavam...) oferece uma única resposta – não – para qualquer pergunta, tanto que os pais, numa eficaz estratégia, muitas vezes perguntam o oposto para receberam a resposta que desejam – “Pedrinho quer ficar mais aqui, não é?” E vem o esperado: “NÃO! Eu quero ir!”.
Na verdade, poderíamos dizer que esta é a fase do Sim. Isto porque até então a criança não sabia o que é escolher, ela simplesmente era levada para onde os pais queriam e fazia o programado para elas. Até que um dia ela descobre esta maravilhosa palavra não: “Não quero ir pro pátio, quero ver televisão” – e funciona! “Não quero isto, quero aquilo” – e aquilo vem! É simplesmente fantástico! É a descoberta da escolha!
Para René Spitz, famoso psicólogo, a chamada “fase do não” é um organizador psíquico fundamental, marca uma passagem importante no amadurecimento da personalidade. Mas, como é comum nesta época (e depois também) “quem nunca comeu quer se lambuzar”. Daí essa compulsão em usar o não para tudo, experimentá-lo nas mais diversas situações, até, ufa, cansar e voltar à alternância básica e eficaz do sim e do não.


Então mamãe não vai mais gostar de você

Para muitas mães e pais, receber um “não” da criança (que até então era tão dócil) é uma expressão de rejeição, algo como ser desprezada afetivamente. Então a criança interna do “adulto” entra na mágoa: “Mamãe ficou muito triste”, ou no revide: “Assim não gosto mais de você”. Como sempre, as ameaças adultas não correspondem aos “delitos” infantis. Perder o afeto de quem é tão importante, a mãe, por exemplo, por ter dado um “não” é muito, concordam? O que está implícito é que “Pedrinho não pode dizer não para mamãe, sob a pena de...”.
E isto é o de menos, muitas vezes o “não” da criança é seguido de uma palmada – outra retaliação excessiva e violenta – ou simplesmente da imposição pela força do desejo materno/paterno, normalmente seguido da conhecida expressão: “Criança não tem querer”.
Convenhamos que este primeiro exercício da escolha e da independência ficou, digamos, prejudicado, não?

“Para muitas mães e pais, receber um não da criança (que até então era tão dócil) é uma expressão de rejeição, algo como ser desprezada afetivamente”


Medos gravados no inconsciente

Então, muitas vezes não dizemos o “não” por medo de não sermos aceitos, por medo de perdermos o afeto do outro, por medo de uma retaliação desproporcional etc. É claro que estes medos não são conscientes, eles se transformaram num padrão de resposta, numa forma de comportar-se. Em última instância, numa característica da personalidade da pessoa. O “bom menino” de qualquer idade e a “boa moça” não dizem “não”. Contrariam suas vontades e desejos, mas correspondem à imagem que forjaram neles. E dizem “sim” contrariados, com aquele sorriso “kolinus” e educado, escondendo um mar de sentimentos de negatividade. Sentimentos não expressos e acumulados são energias que vão se deteriorando no corpo, se transformando em doenças. Negar-se continuamente em função do (medo do) outro, confunde a identidade básica essencial da pessoa e é a matriz das patologias auto-imunes. Não escolher é não exercer-se na vida, é apagar a chama da individualidade essencial. Experimentar romper com esta amarra inconsciente é uma experiência absolutamente libertadora.

Afirmando um NÃO inesquecível

A Bioenergética utiliza vários recursos para recuperarmos este nosso direito básico, muitas vezes com a identificação da(s) cena(s) básica(s) onde o “não” foi suprimido.
Nestor me procurou por motivos bem mais complexos, claro, mas algumas características suas saltaram à vista imediatamente. Um certo “servilismo” e prontidão em me agradar, além de uma dificuldade no falar, quase uma gagueira. Num determinado momento da terapia propuz à ele o conhecido exercício bioenergético de dizer “não” socando a almofada. Relutou o quanto pode, dizendo que aquilo era teatral, que não adiantava nada etc. Com minha insistência topou fazer (nunca dizia não a um homem mais velho) com uma certa irritabilidade dissimulada.
E não deu outra, seus “nãos” foram num crescendo até atingirem um ápice catártico e violento, seguido de um choro largado e consciente. Lembrou-se do medo que sentia do pai hiper autoritário e violento, que não permitia contestação às suas palavras e decisões. Sua expressão emocional no exercício atenuou sua rigidez facial; ele agora me olhava nos olhos e falava sem titubear, relatando a alegria que sentia naquele momento, “como se um peso tivesse saído de seu corpo, um muro saído de sua frente”. Quando chamei sua atenção para o fato de que não estava gaguejando nada, soltou uma enorme gargalhada e me abraçou.
Nestor continuou por mais um bom período na terapia. Logo após este episódio tomou uma série de decisões fundamentais na sua vida, tanto na área afetiva quanto profissional. Poderia dizer que “saiu distribuindo nãos por aí”, experimentando escolher o que realmente queria. Errou bastante (até porque estava em sua retardada “fase do não”) e acertou outro tanto em suas decisões, como todos nós, mas trazia uma alegria até então desconhecida por ele, por estar exercendo esta essência tão fundamental da vida, a liberdade. Ficou mais seguro e também complacente consigo e com os outros, afinal “enganar-se é uma decorrência natural de se escolher”.


Sem fantasias, o “não” pode ser uma gentileza

Quando passamos a reconhecer os motivos mais profundos de porque não ousamos contrariar ou não corresponder ao que esperam de nós, tudo fica mais tranqüilo e consciente. A fantasia infantil que fazemos do que advirá se dissermos “não” se desvanece e o “não” deixa de ser aquela tragédia para simplesmente se transformar num direito básico. Se não quisermos algo, se escolhemos outra coisa, podemos dizer não com gentileza, explicando calmamente os motivos, respeitando as dificuldades do outro, mas sempre sabendo que ao fazermos isso estamos dizendo um belo e significativo SIM para nós mesmos.


Fonte: JORNAL BEM ESTAR – Edição 27 - Outubro/2005

Porque não dizer NÃO?