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(1º de Janeiro de 2006)
Tradução: Katia Martins Etcheverry

Este é o começo de um novo ano. Podemos começar tudo outra vez. Se é 1º de janeiro, ou 14 de abril, ou qualquer outra data, isto é importante. Precisamos deste evento. Precisamos ter um dia ou um evento que podemos chamar de começo. O ser humano está sempre aspirando por um dia melhor, uma oportunidade melhor. Ele/ela sabe que o que está aqui hoje pode não estar amanhã – perdas são sempre possíveis. Se nossa situação é agradável e confortável, queremos que ela continue. Mas se nossa situação é desagradável ou desconfortável, queremos uma pausa. Que este novo ano inicie uma nova oportunidade, um novo começo.

Em que bases se coloca a esperança? Não existe base para a esperança! Só o coração humano é esperançoso. Não existe nenhuma outra base. No que consiste esta base? Entre as batidas do coração “lub” e “dub” existe um espaço. “Lub”. Então, se lhe for permitido, “dub”. Vocês estão vivos agora, então há “lub”. Para permitir que venha o “dub” e então o “lub” há a graça. Existe a graça entre o “lub” e o “dub”. Existe algo que nos mantém funcionando, e é aí que entra a esperança. Mas então a base para a esperança é apenas a predisposição para orar. Se temos uma certa predisposição para orar não existe razão para que não esperemos por uma oportunidade melhor. Devemos aspirar por isto, rezar por isto e trabalhar por isto.

Uma coisa importante que vocês devem saber: Ainda que trabalhemos por certas coisas que queremos realizar não existe garantia de que as realizemos. Está claro que o esforço que fazemos não necessariamente produzirá o resultado que queremos. Em um jogo de baseball o jogador balança o bastão e então olha ao longe para a bola que está com o outro jogador. Não existe conexão nenhuma entre o bastão e a bola. Se tivesse uma conexão e a bola seguisse se deslocando não haveria necessidade de uma corrida para a base. Poderia ser uma bola de falta. Então qual o sentido desta conexão? Ou se saísse para fora do campo um jogador poderia apanhá-la. Este jogador, de fato, reza para conseguir apanhá-la. Enquanto que o outro jogador reza para que não consiga apanhá-la. É por isso que o Senhor algumas vezes fica confuso. Portanto, às vezes o Senhor favorece a ele, outras vezes a você. Agora você pode entender porque algumas vezes ganhamos e outras vezes perdemos. Se fossemos sempre vencedores nosso oponente seria sempre perdedor. E se nosso oponente fosse sempre perdedor não teria graça na competição. Onde está a competição se um lado perde sempre? Portanto tudo está ok. Tudo está bem.
A ação de orar é uma atitude difusa, uma atitude que governa nossa vida, uma atitude que nos proporciona uma disponibilidade interna através da qual podemos acomodar uma situação desagradável, se não agradavelmente ao menos de modo que podemos lidar com ela. Esta disponibilidade interna nos dá o espaço que nos capacita a encarar as situações objetivamente. E este espaço é gerado pela ação de rezar. Pense nisso. Se não rezassemos sempre pensaríamos a nosso respeito como perdedores. Mas não somos perdedores porque não somos os autores dos resultados da ação.

Somos autores apenas de nossas ações, não dos resultados de nossas ações (karma phalam) – as situações que enfrentamos. Considerando este fato a coisa mais apropriada a fazer é receber qualquer resultado que venha com uma atitude imparcial. Quando não conseguimos o que desejamos nos tornamos mais sábios. Não conseguir o que se deseja não significa que nos tornamos perdedores. Temos escolha no que refere às nossas ações – podemos realizar uma dada ação, podemos não realizá-la, podemos realizá-la de modo diverso – mas no que tange os resultados de nossas ações não temos escolha de nenhum tipo. O autor do resultado da ação é Ishvara, o Senhor. Podemos aceitar isto.
Temos a escolha de fazer um esforço usando o melhor de nossa habilidade, confiando em nosso know-how, na validade de nosso know-how e na credibilidade de nosso know-how. Confiando apenas nisso é que agimos. No entanto este know-how pode não ser adequado. Temos de levar em conta outros fatores, e muitos destes fatores são desconhecidos. Não temos conhecimento nenhum das variáveis ocultas, e sem o conhecimento destas variáveis como podemos ser sempre vencedores? Não podemos ser sempre vencedores! Existe algo que podemos fazer para controlar as variáveis ocultas? Existe! Podemos rezar.

A oração é uma ação. A ação de orar é uma atitude. Podemos rezar por uma oportunidade melhor e pela continuidade do que temos de bom. Mas rezar não é suficiente. Temos também que ter recursos. Temos de ser ativos. Temos de agir. Toda mãe hindu é assim. Ela tem recursos. Ela toma um banho a cada manhã e se põe em condições para preparar a comida de sua família. Ela não dirá “Comida para a família e comida para Ishvara (naivedya).” Ela prepara a comida corretamente, para tal ela emprega todos os seus esforços, e então a comida preparada é oferecida a Ishvara. Depois a família come a prasada porque Ishvara não leva embora aquilo que é oferecido a Ele. È uma grande coisa.
Suponhamos que você tenha oferecido 108 modakans a Ganesha e Ele escancarou seu baú e pegou todos os 108 modakans. Você falaria nisso por três dias. Então, suponhamos que você tenha oferecido mais modakans no dia seguinte e que Ele os tivesse tomado também, e ainda no terceiro dia Ele tivesse levado embora sua oferenda. Então você pediria a ajuda de Ganesha – “Por favor, me ajude. Como posso ganhar 108 modakans todo o dia?” Mas Ganesha não leva embora a oferenda. Você sabe por que Ganesha não leva embora o que lhe é oferecido no prato de oferenda? Como Ganesha está aqui, está lá, e em todo lugar – Ele é onipresente (sarva vyapi) – Ele não saberia onde guardar a oferenda! Então Ele a deixa no prato. Ele apenas guarda a atitude (bhavana). Paroksha priyah sarve devah. Isto é bonito! Todos nós entendemos isto muito bem. Portanto podemos fazer uma oferenda ao Senhor e depois retomá-la como prasada.

Precisamos agir. Agir não pode nunca ser desconsiderado. Planejamos e agimos. No entanto, mesmo quando planejamos e fazemos nosso dever de casa apropriadamente, ainda assim podemos falhar no que tentamos realizar. Existem muitos lapsos entre a taça e os lábios. Também existem muitos lapsos entre o prato e a boca e entre a boca e o estômago. A comida que comemos pode não ir para o estômago; em vez disso ela pode ir parar na nossa traquéia. Pessoas morrem por causa disso. Elas vão para yama loka. Não é fácil. Quando é assim fazemos melhor adquirindo alguma graça de Bhagavan.

A ação de rezar não é o suficiente. Precisamos ser ativos. Precisamos ser pragmáticos. E a oração é parte de nosso pragmatismo. O que é pragmatismo? É quando levamos em consideração, de modo objetivo e desapaixonado, todos os fatores e variáveis ocultas que existem e então planejamos e agimos, isto é pragmatismo. O que podemos fazer para controlar as variáveis ocultas? Rezar! Rezar é uma ação. Isto é pragmatismo religioso. Isto é vaidika. Vaidika é pragmatismo religioso.

Todos nós reunidos aqui neste recinto diante do Senhor para começar o primeiro dia do novo ano é pragmatisno religioso. É perfeito! Não poderíamos começar melhor. Começamos com uma oração. Na véspera do Ano Novo muitas pessoas se perdem. Mas ao menos no primeiro dia do novo ano começamos com uma prece para que não nos percamos. A oração é uma ação e tem o seu resultado. O resultado é a graça. Usamos a palavra “graça” por falta de palavra melhor. Mas em realidade o resultado da prece é a graça. É punya.
Apenas punya responde pelo que chamamos de sorte. E adquirimos esta punya. Adquirimos sorte. Não é que sorte seja algo ao acaso. Amealhamos punya de modo que podemos neutralizar todas as causas de má sorte. As causas de má sorte são chamadas durita. Então durita kshayartham é o sankalpa que os sacerdotes fazem antes de começarem a puja – “Para neutralizar as causas que ocasionam situações desagradáveis, eu realizo este ritual, esta oração.” Então com a graça do Senhor/Ishvara/Dakshinamurti, possa este novo ano de 2006 trazer-nos o que desejamos a cada dia e ajudar-nos a evitar o que não desejamos. Precisamos de ambos. Precisamos evitar o que não desejamos; precisamos realizar o que desejamos; e precisamos manter o que temos de bom (yoga kshema). Oramos por yoga kshema.
Feliz Ano Novo para todos! Feliz 2006!

A partir da mensagem falada por Swami Dayananda Saraswati no dia de Ano Novo, 1º de Janeiro de 2006, transcrita por Alan Kellogg e editada por Sharon Cliff.

Fonte: www.avgsatsang.org

Mensagem de Ano Novo de Swamiji Pujya