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Swami Dayananda Sarasvati

Vedanta é o ensinamento sobre você mesmo. É uma indagação através da qual a pessoa descobre que o verdadeiro significado da palavra “eu” é o “si mesmo”, que permanece imutável desde a infância, passando pela idade adulta, até a velhice, e, cuja natureza é a pura consciência, que é satisfação e amor absolutos, e que é livre de qualquer espécie de limitação. Para apreciar a você mesmo como este ser total e ilimitado, você precisa de uma mente que esteja preparada para assimilar este conhecimento. Para aqueles cuja mente não está preparada, Vedanta é como o estudo de cálculo avançado para quem ainda está aprendendo matemática básica. Em Vedanta, a preparação necessária é uma mente que tenha, no sentido relativo, aquilo que ela está querendo encontrar no sentido absoluto. Se a sua natureza é satisfação absoluta, então a mente do estudante deve ser relativamente satisfeita. Se a natureza é amor absoluto, então o estudante deve ser uma pessoa relativamente amorosa, alguém que aceite, com alegria, as pessoas e os objetos como eles são.

Conquistar uma mente como essa significa desenvolver certos valores e atitudes e ter clareza sobre eles, além de entender sua importância. Acomodar os outros é um desses valores. Na verdade, a raiva é devido à falta de acomodação. Se você espera que o mundo se adapte aos seus desejos, são as suas expectativas que lhe trazem raiva. Acomodar é compreender que a outra pessoa age de uma certa forma porque ela não pode agir em desacordo com sua natureza. Você não tem o direito de esperar algo diferente de alguém, simplesmente para satisfazer às suas necessidades. Se você pensa que tem o direito de pedir à outra pessoa que mude, pense que ela também tem o direito de lhe pedir que a deixe viver como ela vive.

Na verdade, é somente acomodando os outros, deixando que eles sejam o que são, que você conquista relativa liberdade na sua vida diária. As pessoas interferem nas vidas umas das outras de muitas maneiras. Cada um cria um efeito global através de suas ações. Normalmente, você observa as coisas de uma perspectiva reduzida, e você vê a pessoa com a qual você está aborrecido crescer diante de você. Na verdade, você nunca está livre da influência dos outros, ou livre das forças que estão no universo. Como também é impossível você realizar uma ação sem afetar todas as outras pessoas. Até mesmo suas afirmações afetarão outras pessoas. Portanto, nossa liberdade precisa incluir o fato de que somos todos inter-relacionados.

Nem mesmo o Swami é livre. Eu estava no Jardim Zoológico outro dia, quando algumas pessoas passaram por mim. Um falou para o outro: “Você reparou aquela nova espécie ali?” Este tipo de comentário é freqüente. Eu tento não chamar a atenção de ninguém, mas parece que minhas roupas, que são as roupas tradicionais de um renunciante, causam uma reação nos outros. Se eu tomo uma decisão, ela certamente afetará outros. Se eu fico perturbado com os comentários dos outros, eu apenas consigo ter aquele tanto de liberdade que eles me concedem. Mas, se eu consigo reverter o processo, se eu dou liberdade para os outros serem aquilo que eles são, eu me torno livre nessa mesma medida. E, assim, eu não discuto com eles. Minha liberdade é a liberdade que eu concedo aos outros para terem a opinião que quiserem sobre mim, mesmo que seja a opinião errada.

Portanto, existem benefícios quando você acomoda a pessoa como ela é. Se alguém faz um comentário sobre você, permita que ele o faça. Se o comentário não corresponde à verdade, você normalmente tenta justificar suas ações e provar que a pessoa está errada. Se você for objetivo, você poderá ver se há alguma validade naquela crítica a seu respeito. Se a pessoa tiver diminuído você para poder aparecer, dê-lhe essa liberdade, e assim você estará livre. Como você pode apertar um parafuso se não houver uma rosca? Da mesma forma, o mundo pode perturbar você apenas na medida em que você permitir que ele o faça. E você não vai permitir que o mundo o perturbe se você lhe der a liberdade de fazer o que ele quiser, dentro das normas da sociedade. Mudando completamente a você mesmo dessa maneira, você ganha na proporção do seu valor pela acomodação, pela satisfação relativa e liberdade.

Praticando a acomodação você chega a um acordo com você psicologicamente - com você mesmo como uma personalidade. Isto é o que chamamos de yoga-sadhana. Não é um esgotamento de impressões (vasanas), mas uma compreensão de certas realidades que existem. Observe as situações de seu passado, as pessoas e os acontecimentos que o incomodaram em sua vida. Não são meras lembranças, mas sim resíduos de reações. Reação não é alguma coisa que você faça conscientemente. Você não pode decidir conscientemente ficar com raiva, porque a raiva não é uma ação, mas uma reação que acontece, alguma coisa fora do seu controle. As reações criam um grande impacto sobre você e se tornam parte da sua psique. Elas são aspectos da personalidade de uma pessoa. E, na verdade, elas são falsas, nascidas da falta de atenção de sua parte. As memórias, por si só, não são dolorosas. A sensação desagradável está em sua mente porque você acalenta reações e emoções como se fossem realidades. Portanto, recorde aquelas pessoas e momentos que lhe causaram dor. Ou, talvez, você carregue alguma culpa por qualquer dano que você tenha provocado em outra pessoa. Quando você se sentar para meditar, recorde-os e deixe-os ser como são. Com paciência, você se libertará de todos os resíduos de reações.

Quando você olha para o céu azul e para as estrelas, ou para os pássaros e para as montanhas, você não tem nada a reclamar deles; e você é feliz. Você olha para as rochas nas margens dos rios; elas não fazem nada para lhe agradar. E, ainda assim, você está feliz, porque você as aceita como elas são, e desta forma, você está satisfeito. O rio flui à sua maneira; ele não incomoda você. Você não deseja que ele esteja mais cheio ou que corra em outra direção. Na verdade, você procura a natureza porque ela não evoca a pessoa insatisfeita, aborrecida e difícil de se satisfazer que você parecer ser. A natureza não toca naquela corda de exigências que existe em você. Você se sente um com a situação, um ser que acomoda, sem precisar que o mundo faça nada para lhe agradar.

Portanto, você é uma pessoa satisfeita com referência a algumas poucas coisas. Esta é a âncora que você deve criar para você mesmo. Quando você vai para a montanha, ela não faz nada para lhe agradar; mas você se sente satisfeito. Observe como você tem a capacidade de estar satisfeito, e traga esta pessoa satisfeita para todas as situações e pessoas que lhe desagradaram ou às quais você desagradou em algum momento. E olhe para você agora, da mesma forma que você olharia se estivesse em contato com a natureza. Aceite as outras pessoas como você aceitaria as estrelas. Reze por uma mudança, se você julgar que você ou os outros precisam mudar, e faça o que estiver ao seu alcance para produzir a mudança. Mas, primeiro aceite os outros. Somente desta maneira você poderá realmente mudar. Aceite os outros totalmente, e você estará livre; e então, você descobrirá o amor, que é você mesmo.

Toronto, Canadá
Julho 1985

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