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Visão Geral do Yoga Visão Geral do Yoga Visão Geral do Yoga

O Yoga está relacionado ao Samkhya (na foram mais antiga ao Samkhya Karika) nos Upanishad , Bhagavad-Gita e nos Yoga Sutras e comentários.

O Samkhya e o Yoga eram tidos como os mais antigos ensinamentos, considerados como os aspectos teórico e prático de uma mesma doutrina.

As Bases Doutrinais do Yoga: O Sâmkhya

O Yoga está relacionado ao Samkhya (na foram mais antiga ao Samkhya Karika) nos Upanishad , Bhagavad-Gita e nos Yoga Sutras e comentários.

O Samkhya e o Yoga eram tidos como os mais antigos ensinamentos, considerados como os aspectos teórico e prático de uma mesma doutrina.

Ponto de partida: Insatisfação da condição humana ordinária

O ponto de partida do Samkhya é insatisfação com a condição humana e o desejo de pôr fim definitivamente a tripla miséria existencial que são:

  1. Adhyatmika, aquela que provém de si mesmo como o sofrimento mental, sofrimento por receber o que não nos agrada e de não obter o que agrada.
  2. Adhibhautika, miséria causada por outros seres, desde humanos , animais, répteis, insetos, etc.
  3. Adhidaivika, miséria de origem celeste atribuída aos elementos atmosféricos como calor, seca, frio, tempestade, enchentes, ciclones etc. e às influências planetárias.

É errônio pensar que miséria existencial (Dukha) depende somente de condições materiais, econômicas ou sociais difíceis ela ocorre na prosperidade e em condições sociais e econômicas excelentes tanto quanto em uma vida laboriosa e carregadas de provações. O homem pode perceber que mesmo superando todos esses sofrimentos, permanece nele uma espécie de inquietude e de agitação interior, uma instabilidade, uma insatisfação, uma falta.

Desapego negativo e desapego positivo

Esse caráter de insatisfação e de desprendimento é destacado pelo Samkhya quando distingue duas espécies de desprendimento (Viraga), literalmente desapego ou renuncia.

  1. O Primeiro nasce do desgosto experimentado quando se consideram as fadigas que é preciso suportar para adquiri-los, a inquietude em conservá-los, o sofrimento de perdê-los, os perigos que escondem em si, o fato de que, ao possuí-los, uma outra pessoa será privada de tê-los etc. Ao se experimentar estes sofrimentos a pessoa se desapega.

  2. A Segunda espécie de desapego ocorre espontaneamente, bruscamente sem trabalhosas reflexões sobre a impermanência do mundo, nasce da sede ardente de liberação, de uma saudade do estado incondicionado, um pressentimento de uma realidade maior que faz perder o interesse por tudo o mais. É o que o Vedanta denomina Mumukshutva, o desejo intenso de liberação como quem tem o cabelo pegando fogo ele somente pensa em uma coisa – Liberação.


Teoria da Causação

O mundo manifestado se caracteriza por uma mutação incessante, todos os fenômenos, tanto físicos como psiquicos, estão em fluxo permanente.

A natureza destas constantes transformações é a relação do efeito à causa. O produto não é o aparecimento de uma substância nova e sem relação com a causa, mas que esta em potência na causa. O que aparece como efeito é apenas a manifestação de certas qualidades já presentes na causa, o desabrochar do que já era latente. Assim toda a produção é um desenvolvimento (Ubdhava), e toda a destruição uma involução(anubhava) ou reabsorção na causa (Laya)

Causa Primeira

Se todos os efeitos estão latentes na causa, deve-se poder retornar a uma causa Primeira ou Primordial (Pradhara) não causada. A causa única deve conter dentro dela toda a realidade de todos os efeitos.

Compreendendo dessa forma o Universo não é uma criação mas uma Manifestação, desdobramento daquilo que já existe latente e indiferenciado na Substância-Causa original, e da mesma forma nada é destruído mas retorna ao estado não manifestado.

Chamamos de Mula-Prakriti, a Natureza Primordial, raiz de todas as manifestações, depois, por abreviação, apenas Prakriti. Ela é Avyakta, o não manifesto. Não pode ser conhecida, apenas inferida a partir dos efeitos.

Os Guna da Prakriti

A Prakriti emite o universo manifesto pelo jogo e interação das três qualidades primordiais ou Gunas. Essa teoria dos três Gunas é fundamental no pensamento Indiano, a infinita diversidade do universo é devida às combinações das três Gunas. O Guna Sattva tem a função manifestar, o Guna Rajas ativar e o Guna Tamas limitar ou obscurecer.

O Guna Sattva tende à iluminação, à manifestação consciente. Psicologicamente se traduz como compreensão, alegria e paz, fisicamente como leveza e pureza. É a conformidade com a essência pura do Ser, identificada com a luz da inteligência ou conhecimento.

O Guna Rajas gera a atividade e o movimento. Fator de energia, está na base de qualquer esforço, de qualquer trabalho, assim como da agitação e da instabilidade e é freqüentemente associado ao sofrimento. O sofrimento, a escassez e a necessidade incitam ao esforço e todo esforço é acompanhado de certa aflição ou impressão de dificuldade. È a força expansiva.

O Guna Tamas é resistência e obstrução a compreensão (Sattva) e ao movimento (Rajas). Objetivamente manifesta-se como peso, obscuridade, inércia; subjetivamente, como apatia, indiferença, ignorância ou inconsciência e tendência descendente.

Sattva tem por função revelar o ser (Sat) de uma coisa; Tamas, opor-se a essa revelação; Rajas é a força pela qual os obstáculos são vencidos. Qualquer coisa possui assim sua forma ideal: O estado Sattvico, que ela se esforça por realizar, e sua condição atual, caracterizada por fraquezas e defeitos que ela busca superar: o estado Tamasico; Rajas é a capacidade de esforço necessária para vencer uma resistência e permitir o estado Sattvico.
Todos os seres são classificados conforme a predominância das gunas. No mundo dos Sobre-humanos ou Deuses (Deva) Sattva é predominante. Na condição humana Rajas é predominante. Nos animais e objetos inanimados predomina Tamas, mas mesmo aí Sattva não está ausente. Assim do reino vegetal ao reino humano e depois Divino, assiste-se a uma diminuição progressiva de Tamas e um aumento de Sattva.
No ser humano quando Tamas predomina, teremos uma pessoa grosseira, ignorante e preguiçosa. Se predomina Rajas a pessoa é ativa, passional e corajosa, guerreira. Aqueles que tem Sattva predominante serão contemplativos, calmos, reflexivos e perspicazes os mais perfeitos exemplos são os sábios e santos.
Pode-se ainda reconhecer no ser humano a predominância de Tamas no corpo, de Rajas na força vital e na vida emotiva e de Sattva na inteligência. Sattva governa a cabeça, Raja o peito e os braços e Tamas a parte inferior do corpo.

Purusha

Além do dinamismo do universo, além da Substância-Primordial está o principio que não é causa nem efeito, nem produtor nem produto, nem criador nem criado. É o Purusha, o princípio de consciência imutável e eterno, imóvel e não ativo e ilumina com sua luz toda a evolução cósmica e individual..
Purusha é a essência intima de todos os seres, não é maculada pelas impurezas exteriores, pela miséria do mundo, estando ela mesma a parte. Penetra todas as coisas, reside em todos os seres, vê tudo é a consciência testemunha (Sakshin), o observador imóvel, que contempla em silêncio o movimento de Prakriti sem se contaminar. Sua natureza é consciência pura que so se torna conhecimento na associação com Prakriti. É o Eu que está presente no sono profundo quanto nos estados de vigilia e sonho. Não depende de nada , mas as produções de Prakriti dependem da luz do Purusha.

A "influência" do Purusha

A influência de Purusha sobre Prakriti põe em movimento as Gunas, rompe o equilibrio destas e provoca a manifestação. Essa influência é comparada à de um imã que mesmo permanecendo imóvel, põe em movimento as partículas de ferro.

O dualismo do Samkhya

Toda a manifestação cósmica fundamenta-se na dualidade Purusha, o princípio transcendente, masculino e Prakriti, a substância primordial, feminina. Entretanto esta dualidade existe somente em relação a manifestação, a divisão do Um para produzir a multiplicidade do mundo. O Samkhya nunca afirmou que Prakriti seja independente de Purusha, toda atividade de Prakriti depende de Purusha, e no final, o homem liberado das limitações do mundo manifestado alcança um estado onde Prakriti desaparece, é não existente.

O desenvolvimento da manifestação

Toda a criação é emitida como a manifestação daquilo que está já inerente na causa Primeira. Prakriti é investida de poder criador pela simples presença do Purusha, emite um princípio (Tattva) que a partir de si mesmo gera um outro, cada princípio procedendo do princípio superior por modificação. A criação e a dissolução são freqüentemente comparadas ao movimento de uma tartaruga que põe para fora os seus membros e depois o recolhe, ou a uma aranha que tece e depois reabsorve a teia.
O desenvolvimento da manifestação consiste na aparição do diferenciado no interior do indiferenciado, do determinado no interior do indeterminado, do específico no interior do indistinto. Purusha assiste como testemunha a cada etapa da manifestação que deriva unicamente de Prakriti, a única a se transformar.
O estudo dos tattvas é essencial para o Yogin que terá que reviver em ordem inversa as etapas da manifestação.

Os Tattvas

Na origem da manifestação, por ruptura do equilibrio dos Gunas devido a influencia de Purusha, o Guna Sattva torna-se predominante em Prakriti.

A primeira produção da Prakriti é Mahat "o Grande" porque não há nada que o supere. Mahat é por vezes identificado com Brahma, o Demiurgo, ou Hiranyagarbha, o "Embrião de Ouro". È o intelecto divino, por isso é também chamado de Buddhi: inteligência pura e informal, supra-individual e supra-racional.
Buddhi é a base da inteligência de todos os seres. No ser individual, Buddhi se manifesta como discernimento, como aquilo que reconhece, determina e decide.

A Segunda produção de Prakriti que procede diretamente de Buddhi é Ahankara: A noção de "eu" ou individuação, que tem por efeito individualizar o princípio intelectual.
Ahankara é definido como presunção de ser uma entidade separada, um "eu agente". Ele introduz na consciência a oposição entre sujeito e objeto. O princípio de individuação impele ao erro fundamental; a confusão entre Prakriti e Purusha.

A partir desse ponto assistimos a uma bifurcação do processo em duas correntes que vão formar, uma o universo subjetivo , e a outra o universo objetivo, resultado da divisão criada por Ahankara entre um "eu agente" e um isso. Do princípio de individuação dominado pelo Guna sattva emanam as onze faculdades (Indriyas), formando o mundo subjetivo; do princípio dominado por Guna Tamas emanam as cinco qualidades sensíveis (Tanmatras), das quais procedem em seguida os cinco elementos grosseiros, formando o mundo objetivo. Num e noutro caso, o Guna Rajas só entra em jogo para ativar a emergência.


As 11 faculdades individuais Indriyas:

Manas forma, juntamente com a noção de "eu" (Ahankara) e o intelecto (Buddhi) o "sentido interno" (Antahkarana), em oposição aos dez primeiros Indriyas que são "sentidos externos".
Estes treze "sentidos", são comparados a a três sentinelas (instrumento psiquico interno) e dez portas na cidade do homem (cinco faculdades sensoriais = porta de entrada e cinco faculdades de ação = portas de saída).

A conjunção do Purusha e da Prakriti

Purusha que é consciência pura, para quem o não manifesto se torna manifesto, se identifica de certa forma com o espetáculo da criação. Purusha , tal como um espectador inteiramente cativado pelo espetáculo, torna-se aparentemente o prisioneiro do mundo fenomenal. Torna-se o Jivatman, "a alma viva" ou ser individual, a consciência que, quando associada às funções Psíquicas e corporais, está engajada na experiência se indentificando com aquele que age e aquele que sofre a experiência.
Diz-se que Purusha reside no coração ou no centro vital do ser humano. É então denominado o Purusha do tamanho do polegar, comparando-o com Purusha macrocósmico ou Purusha de mil cabeças, mil olhos, mil pés, onde o número mil simboliza o infinito. (Rig Veda X,90)

Um ou vários Purushas

Do ponto de vista da manifestação, há vários Purushas, tantos quantos são os seres humanos, esta é a visão do Samkhya. Os Puranas falam que o Purusha permanece idêntico, esteja ele recolhido em si mesmo ou manifesto nos seres animados. Entretanto, o Purusha que reside nos seres manifestos, parece submetido à ignorância, o conhecimento de sua identidade lhe parece velado, esquecendo de sua realidade torna-se individualidade limitada determinada pelos modos de Prakriti.

A Ignorância

Avidya a ignorância é a explicação do Samkhya do por que de os Purushas, essencialmente livres, estarem acorrentados ao universo de Prakriti. O Samkhya não procura saber a causa dessa ignorância, mas como por fim a ela.
O que caracteriza o homem nesse estado de ignorância é a não discriminação entre aquilo que, nele, depende do Purusha, e o que depende de Prakriti.
È a não discriminação que mantém o indivíduo escravizado ao mundo físico e mental.

Corpo Sutil e Transmigração

O corpo Sutil constituído pelo intelecto superior (Buddhi), o princípio de individuação (Ahankara), o mental discursivo e dispersivo (Manas), as dez faculdades de percepção e de ação e as potencialidades dos elementos sensíveis que são os cinco Tanmatra é que transmigra, o Eu Purusha é onipresente não sofre qualquer transformação.
Enquanto houver corpo sutil haverá encarnação e somente quando assume o corpo grosseiro é possível viver as experiências. No corpo sutil estão todas as impressões experiênciadas nos vários nascimentos.

O Karman

Tudo o que somos é resultado dos nossos pensamentos e ações. Os seres são livres para agir, fazem escolhas, mas o resultado vem conforme leis. Cada impressão (Vasana) que advém da experiência escolhida, se for repetida formam um agregado e organizam-se em tendências (Samskaras).Uma vez constituídas, essas tendências tornam-se criadoras, são um reservatório de potencialidades destinadas a se atualizarem nesta ou em outras vidas, e sujeitam o indivíduo aos tipos de experiências que elas representam.

O Samsara

Como escapar ao ciclo ininterrupto de atos e suas conseqüências, este é o problema crucial do Samkhya e do Yoga. Cada gesto, cada palavra, cada pensamento é germe de experiências, e cada experiência germe de ações, de modo que estamos mantidos no movimento das experiências condicionadas. O Samsara é o ciclo ininterrupto de nascimentos e mortes, é a roda da vida onde nos mantemos nessa ignorância. Quebrar esse ciclo é a liberação (Moksha).
Qualquer ação que parta da ignorância, da confusão entre "Eu e não Eu", tem por efeito perpetuar a ignorância e o Samsara

A Liberação

A Liberação consiste em escapar da influência das três Gunas.
A extinção do mal, a acumulação do mérito, a purificação da inteligência ou o aumento de Sattva são favoráveis à liberação mas não suficientes. A liberação só é possível pela discriminação entre Eu e não Eu, é descobrir o que encobre e oculta Purusha. A liberação é chamada no Samkhya de isolamento (kaivalya), onde se faz uma decantação, retirando tudo o que não é Eu.

Discriminação

Pela discriminação, o conhecimento é alcançado.
No processo de discriminação a pessoa vê que nada é seu, o corpo (sutil e grosseiro), não há ego, todas as formações de Prakriti inclusive o intelecto e a noção de eu desaparecem.
Quando a verdade ultima é realizada todos os elementos psíquicos que eram imputados erradamente ao Purusha, dele se desprendem e são reabsorvidos e o Purusha permanece só, repousando em sua própria essência , neste momento até o pensamento discriminativo desaparece.

A dupla função de Buddhi

Buddhi pode funcionar para o Purusha proporcionando o gozo do universo e experiências (Bhoga) e também como meio de discriminação, liberação, desapego e paz (tyaga).
Dentre os 4 Purushartha, objetivos da existência humana ,os 3 primeiros: o prazer (Kama),o ganho ou segurança (Artha) e a retidão (Dharma); estão orientados em direção ao gozo; enquanto o quarto objetivo, a liberação (Moksha) esta orientada em direção a paz..
A liberação é o acontecimento único em direção ao qual toda a criação está a caminho.

Ateísmo do Samkhya?

Fala-se no ateísmo do Samkhya e sobre a única diferença entre Yoga e Samkhya já que o Yoga admite a existência de Deus (Ishvara). Essa observação só é aplicável ao Samkhya Clássico e não ao Samkhya mais antigo.
O Samkhya procura isentar-se de toda a noção de aceitação e fé, mas fica evidente que o Purusha, segundo as descrições nos textos Samkhya, tem todas as características do princípio divino no homem. O Princípio divino não é concebido como exterior ao homem, mas está em todos os seres, aliás em conformidade com os Upanishads.

Salvação pelo Conhecimento

O Samkhya, o Yoga e todas as correntes espirituais da India concordam que a única causa da miséria humana é a ignorância (Avidya). Todo o sofrimento e a degradação humana advém da ignorância. Só o conhecimento pode nos trazer a libertação.

O método

O Samkhya propõe o estudo da verdade e a reflexão permanente até o despertar da intuição discriminadora. A única via indicada pelo Samkhya é a meditação ininterrupta sobre os princípios da doutrina, graças ao ensinamento de um mestre, com suporte dos textos tradicionais, e a ajuda de amigos autênticos que compreendam a verdade.

As Bases Doutrinais do Yoga: O Sâmkhya

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